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Os 8 desperdícios Lean na fábrica: como os reconhecer

Esperas, transportes, movimentos, stocks, sobreprodução, processamento a mais, defeitos e talento por aproveitar. Os oito desperdícios Lean com exemplos de fábricas onde trabalhei, como os ver numa volta de 30 minutos e por qual começar.

Por Pedro MaiaPublicado a 7 min de leitura

A resposta curta

Os 8 desperdícios Lean são as oito formas de gastar tempo, material ou esforço sem acrescentar nada que o cliente pague: esperas, transportes, movimentos, stocks, sobreprodução, processamento a mais, defeitos e talento por aproveitar. Encontrá-los é o primeiro passo de qualquer trabalho de Melhoria Contínua.

A lista vem do Sistema de Produção da Toyota, que começou com sete desperdícios; o oitavo, o talento por aproveitar, foi acrescentado mais tarde. O valor da lista não está em decorá-la. Está em dar nomes a coisas que se veem todos os dias e que, por serem habituais, já ninguém repara.

Os oito, um a um

Cada desperdício tem uma pergunta simples que ajuda a reconhecê-lo no terreno. Os exemplos que dou vêm de trabalhos reais, sem nomes, ou são ilustrativos quando digo que o são.

1. Esperas

Espera é tudo o tempo em que pessoas ou máquinas estão paradas à espera de material, de informação, de uma decisão ou de outra pessoa. A pergunta: quem está parado, e à espera de quê?

Na limpeza geral de uma extrusora que limitava a produção de uma fábrica, uma etapa que podia precisar da manutenção era feita no fim. Se a manutenção fosse precisa, a equipa ficava parada à espera. A etapa passou para o início, com a manutenção a trabalhar em paralelo. Foi uma de várias alterações, e a limpeza passou a fazer-se em menos de metade do tempo de referência. Está em SMED na limpeza geral de uma extrusora.

2. Transportes

Transporte é mover material, peças ou produto de um sítio para outro sem que isso o transforme. A pergunta: quantas vezes é que esta peça muda de sítio antes de sair?

Cada transporte é tempo, risco de dano e, muitas vezes, uma pessoa ou um empilhador ocupados. Um exemplo ilustrativo: um semiacabado que vai da máquina para o armazém intermédio e volta à linha seguinte, quando as duas máquinas estão a 20 metros uma da outra.

3. Movimentos

Movimento é o que as pessoas fazem a mais dentro do posto: procurar, andar, dobrar-se, ir buscar. A pergunta: quanto do tempo da pessoa é passado a procurar coisas?

Numa linha de extrusão, as ferramentas eram partilhadas com outras máquinas e estavam em armários sem identificação. Procurá-las fazia parar a linha: quase 8 horas por mês. Um armário com uma posição para cada ferramenta e o fim da partilha levaram essas paragens a zero. O caso está em 6S numa linha de extrusão.

4. Stocks

Stock a mais é material parado: matéria-prima, semiacabado ou produto acabado além do que é preciso. A pergunta: há quanto tempo está isto aqui, e para quando é preciso?

O stock esconde os outros desperdícios. Com muito stock entre duas máquinas, ninguém repara que uma delas para várias vezes por turno. O stock ocupa espaço e dinheiro, e estraga-se, perde-se ou fica obsoleto.

5. Sobreprodução

Sobreprodução é produzir mais, ou mais cedo, do que o cliente seguinte precisa. A pergunta: para quem é isto que estamos a fazer agora?

É muitas vezes considerado o pior dos desperdícios, porque gera os outros: mais stock, mais transportes, mais espaço ocupado, defeitos que só se descobrem quando o lote já está todo feito. Acontece quase sempre por boas razões aparentes: aproveitar a máquina já afinada, evitar mais uma mudança de série, manter as pessoas ocupadas.

6. Processamento a mais

Processamento a mais é fazer mais do que o cliente pede: tolerâncias mais apertadas do que é preciso, material a mais, passos repetidos, registos em duplicado. A pergunta: o cliente pagaria por isto, se soubesse?

Na blindagem de cabos de uma fábrica, a margem de fio de cobre atribuída a cada carga era várias vezes superior ao necessário. O fio a mais acabava em sobras, abates e sucata. A medição física das bobines e o ajuste carga a carga puseram o balanço de consumo a positivo, com o produto igual. Está em Fio de cobre na blindagem.

O mesmo desperdício aparece fora da fábrica. Na Fresca Mente, a lavandaria que fundei, cada pedido era escrito numa conversa e depois copiado para outro sítio. Os dados eram registados duas vezes. O caso está em Fresca Mente: Lean aplicado aos pedidos.

7. Defeitos

Defeito é tudo o que tem de ser refeito, reparado, rejeitado ou explicado ao cliente. A pergunta: quanto do que produzimos não sai à primeira?

O defeito custa duas vezes: o material e o tempo gastos, e o tempo para o detetar e tratar. Num caso que acompanhei, um defeito aparecia sempre no mesmo sítio do cabo. A localização apontou a causa, e a solução foi forrar as bobines. Está em Defeitos na primeira volta da bobine. Para ordenar os defeitos por impacto, o Pareto de sucata é o ponto de partida.

8. Talento por aproveitar

Talento por aproveitar é não usar o que as pessoas sabem sobre o próprio trabalho. A pergunta: quando foi a última vez que uma ideia de um operador foi posta em prática?

Quem opera a máquina todos os dias sabe onde estão os problemas. Se não há um sítio para essas ideias entrarem, perdem-se. Um espaço para sugestões no fim da reunião de início de turno é uma forma simples de começar.

Como os ver: uma volta de 30 minutos

A melhor forma de encontrar desperdícios é ir ao terreno, com tempo, a observar um processo do princípio ao fim, e não discuti-los numa sala. Uma volta de 30 minutos chega para encher uma folha.

  1. Escolher um processo, de preferência a máquina ou linha que limita a produção.
  2. Ficar a observar, sem interromper. Seguir uma peça ou uma pessoa durante um ciclo completo.
  3. Registar cada desperdício numa folha com as oito categorias, com uma descrição curta e, se possível, uma estimativa do tempo.
  4. Falar com quem trabalha lá, no fim: o que é que mais lhes custa no dia a dia?
  5. Voltar noutro turno. Muitos desperdícios só aparecem a certas horas ou com certas equipas.
Desperdício O que vi Onde Tempo estimado
Espera Operador à espera do empilhador para tirar a bobine cheia Saída da linha 10 min por turno
Movimento Ir buscar a chave de aperto ao armário da outra máquina Posto 2 5 min por mudança

A tabela acima é um exemplo ilustrativo de como preencher a folha. Os números servem só para mostrar o formato.

Por qual começar

Comece pelo desperdício que está na máquina que limita a produção da fábrica, e não pelo que é mais fácil de ver. Uma hora ganha no gargalo é uma hora a mais de produção da fábrica; uma hora ganha noutra máquina pode ser só mais stock à frente do gargalo.

Depois, três critérios ajudam a ordenar:

  • Impacto: quanto tempo, material ou dinheiro se perde?
  • Frequência: acontece todos os dias ou uma vez por mês?
  • Facilidade: resolve-se com uma regra e um armário, ou precisa de investimento?

Em muitas fábricas, as primeiras melhorias são as que custam menos: tirar procuras das mudanças de série (SMED), organizar os postos (5S e gestão visual) e atacar as maiores causas de sucata (redução de sucata).

O erro mais comum

O erro mais comum é tratar a lista como uma caça ao culpado. Os desperdícios estão no processo, não nas pessoas: quem espera não escolheu esperar, e quem procura uma ferramenta não a escondeu.

Quando a equipa percebe que a volta ao terreno é para mudar o processo, e não para avaliar quem lá trabalha, passa a apontar ela própria os desperdícios. É aí que a Melhoria Contínua começa a funcionar.

O Diagnóstico Express é um dia no terreno a fazer exatamente isto: ver o processo, encontrar as cinco maiores perdas e estimar quanto valem. E o guia O que é Melhoria Contínua explica como os desperdícios se ligam ao resto das ferramentas Lean.

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