Contexto
Uma fábrica de cabos elétricos, onde fui responsável de Melhoria Contínua. No processo de blindagem, o cabo é envolvido por fios de cobre, que chegam à máquina em bobines.
Cada carga de bobines é preparada com uma margem de segurança, para garantir que o fio chega para todo o cabo. Ficar sem fio a meio de um cabo é um problema sério, por isso a margem existe por boas razões.
O problema
O balanço de consumo deste fio de cobre estava negativo desde o início do ano: consumia-se mais do que o previsto na estrutura dos artigos.
À primeira vista não havia defeitos que o explicassem. Acompanhando as cargas no terreno e medindo fisicamente as bobines no fim de cada carga, apareceram duas coisas:
- A estimativa da máquina não batia com a bobine. O fio restante que a máquina indicava não correspondia ao que estava de facto na bobine. Uma das causas: o fio alonga sob tensão durante o processo. O resultado era trocar bobines que ainda davam para mais um corte.
- A margem de segurança era várias vezes superior ao necessário. O excedente atribuído a cada carga acabava em sobras, pequenas metragens abatidas ou sucata.
O que foi feito
- Medição física das bobines. No fim das cargas, passou a medir-se fisicamente pelo menos uma bobine de cada fila, em vez de confiar só na estimativa da máquina.
- Ajuste progressivo da margem. A margem usada no planeamento foi ajustada aos poucos, confirmando em cada carga acompanhada que o fio chegava para todo o cabo.
- Aproveitamento das sobras. Quando a medição mostrava fio suficiente, a bobine continuava em produção ou era reutilizada, em vez de ser abatida.
- Usar o fórum que já existia. Os desvios foram discutidos nas reuniões periódicas de sobreconsumos que a gestão da produção já fazia, com as áreas envolvidas, sem criar uma reunião nova.
O produto não mudou: o número de fios, o diâmetro e o passo de blindagem ficaram iguais. Mudou apenas a quantidade de fio atribuída a cada carga.
O resultado
O efeito apareceu de forma progressiva, porque as cargas já lançadas mantinham a margem antiga. Nos três meses seguintes ao ajuste, o balanço de consumo de fio de cobre passou a positivo e anulou todo o défice acumulado no início do ano, com o produto igual.
A principal alavanca não foi gastar menos fio por metro de cabo, que depende da geometria do produto. Foi atribuir menos fio excedentário a cada carga e perder menos nas sobras.
O que a equipa aprendeu
O desperdício nem sempre está no processo nem aparece como defeito. Às vezes está numa margem de segurança que ninguém voltou a questionar depois de definida.
Medir no terreno foi o que mostrou a perda: os números do sistema diziam uma coisa, as bobines diziam outra. Reduzir a margem com segurança exigiu fazê-lo aos poucos, confirmando em cada carga que o fio chegava, para a equipa confiar na nova regra. E o ganho só se mantém se a medição e a revisão da margem continuarem: sem elas, a margem tende a crescer outra vez.