Saltar para o conteúdo
Melhor.ia · por Pedro MaiaMelhor.ia · por Pedro Maia

Artigo

Pareto de sucata: por onde começar a reduzir perdas

Um mês de sucata ordenado de duas maneiras, por peças e por euros, dá duas prioridades diferentes. Como registar as causas, como escolher a primeira a atacar e porque é que às vezes a perda está numa margem de segurança que ninguém revê.

Por Pedro MaiaPublicado a 7 min de leitura

O que é um Pareto de sucata

Um Pareto de sucata é um gráfico de barras que ordena as causas de sucata e retrabalho da maior para a menor, para mostrar quais pesam mais. Quase sempre, poucas causas explicam a maior parte da perda, e é por essas que se começa.

O nome vem de Vilfredo Pareto, um economista italiano que estudou a distribuição da riqueza; foi Joseph Juran quem levou a ideia para a qualidade. Numa fábrica, isto quer dizer que não é preciso atacar dez tipos de defeito ao mesmo tempo. Basta saber quais são os dois ou três que pesam mais e concentrar a equipa neles.

O Pareto parece simples, e é. O que costuma correr mal é o que vem antes (os dados) e o que vem depois (a ação). Este artigo trata das duas coisas, com um exemplo ilustrativo.

Que dados registar

Para cada ocorrência de sucata ou retrabalho, registe a data, o turno, a máquina, o produto, a causa (de uma lista fechada) e a quantidade. Com estes seis campos é possível fazer o Pareto e, mais tarde, cruzá-lo por máquina, por turno e por produto.

A parte mais importante é a lista de causas. Algumas regras práticas:

  • Uma lista fechada, com 8 a 12 causas, definida com quem regista. Texto livre dá dezenas de formas de escrever a mesma coisa.
  • Causas, não sintomas, sempre que possível. “Arranque após mudança de série” diz mais do que “peça fora de medida”.
  • Uma categoria “Outra”, vigiada. Se começar a crescer, é sinal de que falta uma causa na lista.
  • A mesma unidade em todos os registos. Peças, metros ou quilos, mas sempre a mesma por produto.
  • Sucata e retrabalho separados. O retrabalho também é perda (de tempo e de capacidade), mas custa de forma diferente.

O registo tem de ser rápido. Se demorar mais de um minuto, vai ser feito no fim do turno, de memória, e o Pareto vai mostrar as causas de que as pessoas se lembram, não as que aconteceram.

Um exemplo ilustrativo: um mês de sucata

No exemplo, a causa com mais peças rejeitadas não é a que custa mais dinheiro. Os números são inventados para mostrar o método, numa linha de injeção, e não vêm de nenhuma fábrica real.

Causa Peças Custo por peça Custo do mês
Rebarbas 1 200 0,40 € 480 €
Arranque após mudança de série 900 0,40 € 360 €
Dimensão fora de tolerância 450 0,40 € 180 €
Riscos detetados na embalagem 300 2,10 € 630 €
Manchas 250 0,40 € 100 €
Outras 150 0,40 € 60 €
Total 3 250 1 810 €

Ordenado por peças, o Pareto põe as rebarbas em primeiro lugar (37% das peças) e o arranque após mudança de série em segundo (28%). Juntas, são quase dois terços da sucata.

Ordenado por euros, a ordem muda. Os riscos detetados na embalagem passam para primeiro (35% do custo), porque cada peça riscada já tinha sido montada e embalada quando foi rejeitada: o custo por peça é mais de cinco vezes maior. Seguem-se as rebarbas (27%) e o arranque após mudança de série (20%). As três primeiras causas explicam 81% do custo.

Quantidade ou euros?

Use o custo (ou o tempo de máquina gargalo perdido) para decidir por onde começar, e a quantidade para encontrar padrões. As duas leituras são úteis, mas respondem a perguntas diferentes.

O custo de uma peça rejeitada depende do sítio onde é detetada. Uma peça rejeitada logo à saída da máquina custa o material e o tempo de máquina. A mesma peça rejeitada no fim, depois de montada, embalada ou entregue ao cliente, custa tudo o que se lhe acrescentou pelo caminho, mais a eventual reclamação. É por isso que um defeito com poucas ocorrências pode ser o mais caro.

Não é preciso um cálculo de custos perfeito. Um custo por peça aproximado, por fase do processo, chega para ordenar as causas. O que não convém é decidir só pela quantidade, porque o que se poupa no fim do mês são euros, não peças.

Estratificar: o mesmo Pareto por máquina, turno e produto

Depois do Pareto geral, faça o mesmo Pareto para a causa principal, separado por máquina, turno e produto: é aí que a causa começa a aparecer. Um defeito que se distribui por igual tem causas diferentes de um defeito que se concentra numa máquina ou num turno.

No exemplo ilustrativo, se o “arranque após mudança de série” se concentrar quase todo numa máquina, a pergunta deixa de ser porque há sucata e passa a ser porque é que o arranque desta máquina demora tanto a dar peças boas. A resposta pode estar na falta de parâmetros de arranque registados por produto, que é um problema de mudança de série e se ataca com SMED.

Se os riscos aparecerem sobretudo num turno, vale a pena ver o que muda nesse turno: pessoas, método de manuseamento, embalagem, iluminação. Se aparecerem num produto, a causa pode estar no desenho da embalagem ou no transporte interno.

Escolher a primeira causa e atacá-la

Escolha uma causa, defina o problema com números, procure a causa raiz no terreno e verifique se a ação resultou antes de passar à seguinte. É o ciclo PDCA aplicado a uma perda concreta, e cabe numa folha A3.

Os passos, de forma resumida:

  1. Definir o problema com números. Por exemplo: “Riscos detetados na embalagem: 300 peças e 630 € no último mês, sobretudo no produto X.”
  2. Ir ver. Acompanhar o processo onde o defeito nasce, com quem lá trabalha. Muitas causas só se percebem no terreno.
  3. Procurar a causa raiz. Perguntar “porquê?” até chegar a uma causa sobre a qual se pode agir, e confirmá-la com dados, não só com opiniões.
  4. Agir em pequeno. Testar a ação numa máquina ou num produto antes de alargar.
  5. Verificar. Comparar o Pareto antes e depois, com o mesmo registo. Se a causa desceu, padroniza-se a ação; se não desceu, volta-se ao passo 3.

Atacar uma causa de cada vez parece lento, mas é mais rápido do que lançar dez ações genéricas (“mais atenção”, “mais uma inspeção”) que não tocam em nenhuma causa.

Atenção às margens de segurança

Nem toda a perda aparece no Pareto de defeitos: às vezes está numa margem de segurança que ninguém volta a questionar depois de definida. Material a mais por carga, tolerâncias folgadas “por precaução”, sobras que ninguém pesa.

Na fábrica de cabos onde fui responsável de Melhoria Contínua, o consumo de fio de cobre na blindagem tinha um balanço negativo. O desperdício não estava em defeitos de produção. Estava na margem de segurança: o fio atribuído a cada carga era várias vezes superior ao necessário, e o excedente acabava em sobras, pequenas metragens abatidas e sucata. Além disso, a estimativa de fio restante que a máquina mostrava não batia com o que estava na bobine, e trocavam-se bobines que ainda davam para mais um corte.

As mudanças foram simples: medir fisicamente as bobines, ajustar a margem carga a carga, confirmando sempre que o fio chegava, e aproveitar as sobras. Nos três meses seguintes, o balanço de consumo passou a positivo e anulou todo o défice acumulado no início do ano, com o produto igual. Nenhum Pareto de defeitos teria mostrado esta perda, porque não era um defeito. O caso completo está em fio de cobre na blindagem.

Manter o Pareto vivo

O Pareto só reduz perdas se for atualizado e revisto com regularidade, numa reunião curta em que se decide a próxima ação. Um Pareto feito uma vez, para uma apresentação, mostra a situação daquele mês e mais nada.

Uma rotina que funciona:

  • Registo diário, no posto, com a lista fechada de causas.
  • Revisão semanal do Pareto com a chefia da área: que causa está a ser atacada e se está a descer.
  • Revisão mensal com a direção, em euros: quanto custou a sucata e o retrabalho, e o que mudou.

Quando o registo já existe mas dá trabalho a juntar, um dashboard de produção atualiza o Pareto sozinho. E um projeto de redução de sucata e retrabalho faz exatamente este percurso, do registo à causa e da causa à ação medida. Se ainda não sabe quanto perde nem onde, o Diagnóstico Express é um bom ponto de partida. O guia O que é Melhoria Contínua mostra onde o Pareto encaixa entre as restantes ferramentas.

Modelo gratuito

Um modelo para usar na sua fábrica

  • Modelo A3 de resolução de problemas

    Um problema numa folha, do facto à causa e da causa à ação verificada. É a ferramenta que dá método às reuniões sobre perdas, sucata e qualidade.

    Receber o modeloPDF, A3, 2 páginas

Na prática

Serviços e guia relacionados

No blog

Continuar a ler

  • Como calcular o OEE: exemplo passo a passo

    Um turno de uma injetora, do registo das paragens ao OEE final, com as perdas convertidas em minutos. E o erro mais comum ao juntar turnos e máquinas: fazer a média das percentagens.

  • Porque é que o 5S não dura, e como o manter

    “Já fizemos 5S e ao fim de 3 meses estava tudo igual.” As razões quase nunca são falta de vontade: são falta de rotina, de dono e de um motivo visível para manter. O que fazer diferente, com uma auditoria que se faz em 10 minutos.

Quer aplicar isto na sua fábrica?

Numa conversa de 30 minutos, sem custo, vemos onde estão as maiores perdas e por onde faz sentido começar.